Entrevista por Alain Jourdan publicada a 24 de janeiro, 2020/ The Welt+
O pregador Fethullah Gülen foi em tempos um aliado próximo do presidente turco. Hoje, Erdogan acusa-lo de estar por trás da tentativa de golpe de julho de 2016, e Gülen está exilado. Nesta entrevista, ele explica as fraquezas do presidente turco.
Fethullah Gülen, inimigo número 1 do estado turco, vive há vários anos nos EUA. O encontro com ele deu-se em sua casa na Pensilvânia, sob proteção policial.
A saúde do homem de 78 anos, que o governo turco vê como uma ameaça, é frágil. Ankara exigiu, em vão, a sua extradição dos Estados Unidos. Ankara acusa o pregador, afirmando que ele e o Movimento Hizmet estão por trás do golpe de estado falhado de julho de 2016, o que Gülen negou consistentemente.
Ele testemunha impotente a maneira como os seus apoiantes são perseguidos, até em corredores da ONU. O governo turco tem feito de tudo para retirar as suas acreditações das ONGs dirigidas por apoiantes de Gulen. Não terão um dizer quando a sessão da Revisão Periódica Universal (RPU), dedicada à situação na Turquia, for realizada em frente ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU em Geneva.
Welt: Porque é que Erdogan o odeia tanto? Foi seu aliado no passado, não foi?
Fethullah Gülen: O Movimento Hizmet nunca teve uma relação próxima com ele. Erdogan parecia partilhar as nossas ideias de democracia. Só isso. Ele lutava pelas mesmas coisas. Mas quando assumiu o poder, mostrou um lado completamente diferente. Não podia apoiar isso. As nossas escolas defendem uma visão de educação incompatível com a tendência ao autoritarismo. Defendemos, por exemplo, o direito dos cidadãos curdos usarem a sua língua a par com a língua turca. É ele que me considera seu inimigo. Nunca o considerei como tal.
Só lhe pedi que cumprisse as suas promessas. O seu maior inimigo é ele mesmo. Ele vê-se como o humano mais inteligente do mundo mas, na realidade, é movido por sentimentos de ciúme, ódio e vingança. O seu governo afundou-se em paranóia. A minha irmã mais velha tem de viver escondida e todos os que têm o mesmo apelido que eu são presos.
Welt: Então a vossa discordância vem da questão dos curdos, se bem percebemos?
Fethullah Gülen: Erdogan não está em sintonia comigo. Quando era primeiro ministro, o ex-presidente Turgut Ozal resolveu parcialmente o problema ao incluir ministros curdos no seu gabinete, assim como sociais democratas e representativas de outras correntes políticas. Eu acredito que deverá ser garantida mais liberdade e que a língua curda deve ser permitida nas escolas. Isto requer um estado mais descentralizado. Se um dia houver uma nova reforma constitucional, recomendo-lhes que estudem o modelo da constituição americana, que garante grande liberdade aos cidadãos.
Qual é a sua abordagem de oposição em relação à liberdade? Erdogan acredita que as mulheres pertencem à cozinha. Isso também será uma razão do seu desacordo?
Gülen: (Sorri.) Pessoalmente não sou a favor do modelo patriarcal, porque é um passo para trás na história do começo do Islão. As mulheres devem ser capazes de encontrar o seu lugar na sociedade em todo o lado. Se uma mulher quiser ser juíza ou piloto, nada deve pará-la.
Erdogan também se esforça para desempenhar um papel no cenário internacional e regional. O que pensa da operação militar lançada por Erdogan na Síria em 2019?
Era uma operação de desvio. Ele queria desviar a atenção das pessoas para que não se focassem nos problemas internos da Turquia. Era também uma nova oportunidade para posar como um homem forte no mundo muçulmano. Mas podemos ver o resultado na Síria. Ele tornou-se num assassino ao apoiar uma revolta irrealista. Tem grande responsabilidade em tudo o que aconteceu. Milhares de mortos, milhões de refugiados, todas estas coisas horríveis. Um dos seus ex-ministros perguntou-me qual era a solução para sair a crise Síria. Eu respondi que seria necessário um acordo para se avançar rumo à democracia, passo a passo.
Eu disse que é importante apoiar um processo de democratização gradual na Síria e, se necessário, ajudar Assad a permanecer presidente durante algum tempo, assegurando que todos os grupos étnicos, quer sejam uma maioria ou minoria, estejam no parlamento e sejam representados. Mas eles ignoraram o meu conselho.
Influenciar a situação na Líbia também é um erro de Erdogan??
Sempre houve tensão entre as diferentes regiões na Líbia. Mais uma vez, Erdogan desempenha um papel negativo ao apoiar certos grupos. Ele quer ser o novo líder do mundo muçulmano, mas como pode ele reivindicar tal posição enquanto apoia e encoraja ações que levam a conflitos entre sunitas? Está preso pelas próprias contradições. Todos os ditadores e tiranos narcisistas como Hitler e Estalina tiveram um mau final. O seu reino sempre acabou em fúria. Ele sofrerá o mesmo destino.
Por enquanto, Erdogan continua a exercer pressão no oriente ao ameaçar sair da NATO. Acha que ele faria mesmo isso??
Erdogan parece estar a tentar aproximar-se da Rússia e da Organização para Cooperação de Shanghai, para uma colaboração, mas é só bluff. Na verdade, está apenas a tentar fazer chantagem. Ele não consegue deixar o oriente. Precisa deles para se proteger. Ele utiliza esta retórica para convencer os seus apoiantes. Pessoalmente, acredito que a Turquia deva manter as suas relações com a NATO e a Europa.
De qualquer maneira, a questão da adesão da Turquia à UE parece estar definitivamente fora de questão. Arrepende-se disso?
Atualmente, com o seu governo totalitário não vejo como será possível tornarem-se membros da União Europeia. Não há nada a esperar de pessoas que se mantêm no poder através de violência, ódio e vingança. Aos olhos da França e da Alemanha, a Turquia perdeu toda a credibilidade por agora. O nosso movimento defenderá sempre a reaproximação à União Europeia porque podemos aprender e beneficiar da mesma.
Erdogan parece mais inclinado a abordar a Irmandade Muçulmana. O que acha disto?
Ele é maquiavélico. Se se tornou próximo dos irmãos Muçulmanos, foi por calculismo. Se perderem influência, ele irá deixá-los rapidamente.
Como prevê o futuro papel do seu movimento?
Hizmet irá continuar a ser uma fundação humanitária porque essa é a sua vocação primária.
Infelizmente, isto é tornado difícil pelo contexto desfavorável. Somos um movimento muito pequeno, mas continuaremos a defender o nosso modelo de harmonia social e respeito mútuo, tolerância e diversidade. Creio que os valores humanistas podem unir-nos além das nossas afiliações religiosas.
Recentemente, fui tratado num centro hospitalar. Conheci doutores cristãos e judeus lá, que tratavam de pacientes muçulmanos com grande respeito. Fiquei tocado pela sua humanidade. Deus avalia as pessoas pelas suas ações, não pela sua aparência. https://www.welt.de/politik/ausland/plus205361127/Tuerkei-Erdogan-wird-enden-wie-Hitler-oder-Stalin.html

